Durante uma conversa entre profissionais do setor florestal, surgiu uma pergunta interessante:
— Depois de tantos anos acompanhando a evolução da silvicultura brasileira, qual foi a maior mudança que aconteceu?
As respostas foram muitas. Lembraram-se os avanços da genética, da mecanização, da produção de mudas, das máquinas, dos sistemas de gestão, do monitoramento por satélite, dos drones, da inteligência artificial e de tantas outras ferramentas que revolucionaram a forma de planejar, monitorar e administrar as florestas.
Mas, depois de alguns instantes de reflexão, surgiu uma resposta diferente: talvez a maior transformação da silvicultura tenha sido a terceirização. Ela deixou de ser uma atividade complementar para se tornar protagonista da execução operacional, desde a produção de mudas até a formação, a colheita e o transporte da madeira.
Ao longo desse processo surgiram empresas altamente especializadas, muitas delas tornando-se referências pela competência técnica, pela qualidade dos serviços e pela capacidade de entregar resultados consistentes.
Essa transformação trouxe também uma mudança mais silenciosa: a forma de relacionamento entre contratantes e contratados.
No passado, os contratos existiam, mas eram fortalecidos pela confiança, pelo respeito, pela palavra empenhada, pelo diálogo permanente e pela responsabilidade compartilhada pelos resultados.
Com a evolução das organizações, vieram contratos mais completos, controles mais rigorosos e maior segurança jurídica. Foi um avanço importante e necessário. Entretanto, em muitos casos, as relações tornaram-se mais burocráticas e distantes, reduzindo o espaço para a construção conjunta de soluções e para o reconhecimento daqueles que fazem a diferença na execução das operações.
Os reflexos dessa mudança podem ser observados com facilidade no campo. Existem diferenças marcantes entre florestas submetidas aos mesmos materiais genéticos, aos mesmos projetos, aos mesmos insumos e às mesmas recomendações técnicas. Muitas vezes, a principal variável é apenas uma: quem executou o trabalho.
A explicação, quase sempre, está na competência das equipes, na qualidade da liderança, na organização operacional, no comprometimento das pessoas e na capacidade da empresa executora de transformar planejamento em resultados.
Essa constatação leva a uma reflexão importante: a produtividade das florestas também depende de quem as executa.
Mais do que contratar pelo menor preço, é fundamental identificar competência e valorizar empresas que investem continuamente na qualificação de suas equipes, na profissionalização dos processos, na segurança, na inovação e na busca permanente da qualidade. São essas empresas que transformam tecnologia em produtividade e planejamento em florestas de alto desempenho.
Felizmente, a própria silvicultura brasileira oferece excelentes exemplos desse caminho. Existem contratantes e empresas prestadoras que construíram relações duradouras, baseadas na confiança, no respeito, na transparência e no compromisso compartilhado com os resultados. Essas parcerias demonstram que é perfeitamente possível conciliar segurança jurídica, eficiência operacional e relações profissionais sólidas.
A silvicultura brasileira continuará evoluindo em tecnologia, mecanização, inteligência artificial e sistemas de gestão. Mas dificilmente alcançará todo o seu potencial enquanto não reconhecer, na mesma proporção, o valor de quem transforma projetos em florestas.
Os bons exemplos já existem. Reconhecê-los, fortalecê-los e fazer deles uma referência para todo o setor talvez seja uma das maiores oportunidades para aumentar a produtividade das florestas brasileiras. Quando competência e parceria caminham juntas, todos ganham: as empresas prestadoras de serviços, as empresas contratantes, os empreendimentos florestais e, principalmente, a própria silvicultura brasileira.
Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

