O ETANOL DE MILHO, UMA BELEZA….E A MADEIRA?

O avanço do etanol de milho impressiona.

As indústrias crescem, novos projetos surgem em diferentes regiões do Brasil e o setor energético ganha uma alternativa estratégica de enorme relevância.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita com urgência:
Haverá madeira suficiente para sustentar essa expansão?

E a resposta, olhando a realidade nua e crua, é preocupante.

Em muitas das regiões onde essas indústrias estão se instalando, simplesmente não existem florestas plantadas em quantidade suficiente para atender à futura demanda de biomassa. E, mais grave ainda, são regiões onde a silvicultura comercial praticamente não possui histórico técnico consolidado.

O entusiasmo com o etanol de milho precisa vir acompanhado de outra corrida igualmente estratégica:
a corrida pela formação de florestas.

E não se trata apenas de plantar árvores.

A experiência da silvicultura brasileira mostrou, ao longo de décadas, que florestas de eucalipto só alcançam produtividade elevada quando se utilizam materiais genéticos adequados às condições locais de clima, solo e disponibilidade hídrica.

E é exatamente aí que surge um dos maiores desafios.

Muitas dessas novas fronteiras de consumo de biomassa ainda não possuem informações técnicas suficientes sobre clones, espécies ou materiais genéticos realmente adaptados às suas condições ambientais. Em várias situações, praticamente não existem programas estruturados de pesquisa florestal capazes de indicar, com segurança, quais materiais apresentarão produtividade, estabilidade e sobrevivência econômica.

Essa deveria ser, talvez, a principal preocupação das empresas que caminham nessa direção.

Sem pesquisa, sem genética adequada e sem formação acelerada de florestas, o risco de se construir uma indústria dependente de uma base florestal frágil é enorme.

Hoje, em várias dessas regiões, parte da biomassa utilizada ainda vem de resíduos de vegetação nativa ou sobras de desmatamentos legalmente autorizados para expansão agrícola ou outras atividades legitimamente constituídas.

Quando isso ocorre dentro da legalidade e utilizando resíduos reais, trata-se até de uma alternativa eficiente e ambientalmente inteligente.

Mas existe um limite extremamente perigoso nessa linha.

A história brasileira mostra que, quando uma indústria depende continuamente de madeira e não possui florestas plantadas suficientes para sustentação futura, o risco de surgirem questionamentos, suspeitas e até acusações relacionadas ao uso inadequado de madeira nativa aumenta enormemente.

E basta um deslize nesse ambiente para comprometer a imagem, a credibilidade e a sustentabilidade de todo o empreendimento.

Por isso, não é aceitável que novos projetos industriais avancem sem plena consciência de que a base florestal precisa nascer junto com a indústria.

E aqui surge outra realidade que precisa ser encarada sem ilusões:

Não existem, hoje, materiais genéticos milagrosos prontos para transformar regiões limitadas em polos imediatos de boa produtividade florestal.

Será necessário plantar com os materiais atualmente disponíveis, mesmo com produtividades mais baixas, e, paralelamente, acelerar os programas de pesquisa, melhoramento genético e adaptação regional.

Não adianta sonhar com os mesmos resultados obtidos nas regiões clássicas da silvicultura brasileira, onde solos mais favoráveis, melhor distribuição de chuvas e décadas de pesquisa permitiram boas produtividades.

Cada região possui seus limites.

E enfrentar essa realidade com maturidade técnica talvez seja o caminho mais inteligente para garantir a verdadeira sustentabilidade do etanol de milho.

Porque o sucesso dessa nova indústria não dependerá apenas do milho.

Dependerá, também, da capacidade de o Brasil construir, rapidamente, uma nova silvicultura adaptada às regiões onde a biomassa passou a ser parte vital do negócio.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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