Uma nova onda começa a tomar conta do setor florestal.
Nunca se falou tanto em restauração. Nunca houve tantos recursos disponíveis, e outros tantos a caminho, impulsionados pelo mercado de carbono.
O Brasil assumiu o compromisso de restaurar cerca de 12 milhões de hectares até 2030. O tema ganhou escala, visibilidade e, cada vez mais, ganha forma de negócio.
Mas antes de ser um bom negócio, a restauração atende a uma necessidade real, e urgente.
Em análise recente no Valor Econômico, também repercutida na Rede SBS, o engenheiro Leonardo Sobral, do Imaflora, organiza um conjunto de sinais que merecem atenção.
Com base em dados do MapBiomas, mostra que, em 2024, a área coberta por água no Brasil ficou abaixo da média histórica, atingindo cerca de 17,9 milhões de hectares, com aproximadamente 45% dos municípios registrando níveis inferiores ao padrão.
Ao mesmo tempo, estudos recentes, como o publicado em 2025 na revista AGU Advances, indicam que a redução da cobertura florestal já começa a afetar o regime de chuvas na estação seca.
Não são pontos isolados. São sinais consistentes de que a base hídrica que sustenta produção, energia e abastecimento começa a se tornar mais instável.
E a floresta está no centro dessa equação.
É nesse contexto que a restauração deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a assumir um papel mais amplo, hídrico, climático e produtivo.
E há ainda um fator adicional relevante. Segundo o Termômetro do Código Florestal 2024–2025, também citado por Sobral, o Brasil mantém um déficit expressivo, cerca de 3,14 milhões de hectares em APPs e 17,3 milhões de hectares em Reserva Legal.
Ou seja, não estamos falando só em oportunidade, estamos tratando de necessidades. A restauração, seja por plantio, e aqui entram os plantios com espécies nativas, condução da regeneração natural ou modelos intermediários, é necessária.
Mas, quando o assunto ganha escala e recursos, os riscos também crescem.
A conexão com o mercado de carbono amplia o interesse, mas também abre espaço para interpretações e, em alguns casos, distorções. E é aqui que o assunto merece toda a atenção.
O setor já viveu algo muito parecido nos anos 60 e 70, no início do ciclo dos incentivos fiscais ao reflorestamento. Erros e abusos quase comprometeram a credibilidade de toda a política. Só foram contidos com a atuação rigorosa do antigo IBDF, cancelando projetos e impondo verificação efetiva no campo.
Por isso, este momento exige mais do que entusiasmo. Exige responsabilidade. Não basta restaurar. É preciso entregar resultado real. E são anos de acompanhamento até que se alcance o resultado esperado.
E é exatamente por isso que este pode ser mais um momento muito importante da silvicultura brasileira. A restauração bem sucedida, com credibilidade e confiança, abre inúmeras oportunidades à silvicultura brasileira. Mas, se errarmos, os impactos negativos não serão apenas num projeto. Haverá respingos nos plantios de espécies nativas e até na própria silvicultura das espécies comerciais.
Fica o desafio.
Com toda a competência técnica que o país possui, e com os exemplos do passado para orientar, vamos transformar a restauração em um grande caso de sucesso, ou deixar que erros ou distorções fechem todos os caminhos?
Na silvicultura, a regra não muda, credibilidade e confiança se constroem no campo.
🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br