A silvicultura mudou muito. Incorporou tecnologia, sistemas de informação, imagens, drones, sensores, inteligência artificial, automação, monitoramento em tempo real e uma enorme capacidade de produzir e analisar dados.
Tudo isso representa avanço. E deve ser aproveitado.
Mas existe uma questão fundamental: como fazer toda essa modernidade chegar ao campo e se transformar em floresta bem formada, produtiva e competitiva?
Talvez a resposta esteja na integração entre duas silviculturas que, às vezes, parecem pertencer a mundos diferentes: a Silvicultura 4.0 e a velha e indispensável silvicultura do “feijão com arroz”.
Podemos dividir essa conversa, de maneira bem simples, em três partes: pensação, falação e fazeção.
A pensação envolve planejar, analisar, definir estratégias, estabelecer metas, acompanhar custos e produtividade, interpretar informações e decidir. É nesse espaço que a tecnologia moderna oferece recursos extraordinários. Hoje temos muito mais informações e instrumentos para planejar e tomar decisões melhores.
A falação também evoluiu. Reuniões, indicadores, painéis, apresentações, relatórios e sistemas permitem acompanhar operações, cobrar resultados, comparar desempenhos e comunicar rapidamente o que está acontecendo. Informação de qualidade e boa comunicação são indispensáveis à gestão moderna.
Mas existe a terceira parte — e talvez a mais importante: a fazeção.
É nela que a floresta realmente acontece.
E a fazeção pode e deve incorporar tecnologia. Pode usar aplicativos, máquinas modernas, georreferenciamento, controle digital, sensores e tudo aquilo que ajude a executar melhor.
Mas sua estrutura básica continua sendo surpreendentemente simples.
Preparar bem. Plantar bem. Adubar corretamente. Porrete nas formigas. Fazer a manutenção na hora certa. Corrigir rapidamente os erros. Acompanhar a qualidade. E não deixar para amanhã aquilo que a floresta precisava receber hoje.
Essa é a silvicultura do feijão com arroz.
Só que ela não acontece dentro de uma sala, de um computador ou de uma apresentação. Ela acontece com sol, chuva, poeira, barro e gente preparada no campo, e de “olho” em tudo!
Por isso, talvez o grande desafio não seja escolher entre a Silvicultura 4.0 e a silvicultura tradicional. É fazer com que uma fortaleça a outra. E aqui, ainda existe outro desafio. Em muitas regiões a fazeção, tem a participação significativa de terceiros. E transformar a terceirização, numa parceria confiável, é a única maneira de se otimizar a fazeção.
A tecnologia deve melhorar a pensação, facilitar a falação e, principalmente, aperfeiçoar a fazeção.
Quando isso acontece, temos uma silvicultura verdadeiramente moderna: aquela que usa toda a tecnologia disponível, mas não perde a capacidade de fazer muito bem o básico.
Porque podemos sofisticar os sistemas, modernizar o vocabulário e até colocar alguma fantasia na fazeção. Mas, no final, quem mede o sucesso não é a apresentação.
É a floresta.
E floresta boa continua exigindo uma receita que nenhuma revolução tecnológica conseguiu substituir:
tecnologia na cabeça, informação na gestão e muito feijão com arroz no campo.
🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br