!O piloto de escrivaninha, o fio de bigode (mesmo sem bigode) e o sangue no olho fazem parte do linguajar de quem trabalha com florestas plantadas. São termos do cotidiano profissional, que retratam verdadeiras lições de vida!
O “fio de bigode” sempre avalizou decisões importantes nas relações do fomento florestal, na compra de madeira, na prestação de serviços, dentre outras negociações. O “fio de bigode empenhado era compromisso irreparável! Nada de desculpas e nem justificativas para qualquer desvio. A palavra empenhada era a melhor documentação entre as partes. Complementos burocráticos não punham em risco o tratado e o empenhado “fio de bigode”!
Também interessantes eram os relatos do “sangue no olho”, da “cara de susto” ou da “cara de paisagem”. A cara dizia tudo. Na verdade, o segredo sempre esteve em saber fazer a leitura! Nem pensar em desconfiar, que alguém com “sangue no olho” não cumprisse esse ou aquele desafio. No entanto, seria tremenda ingenuidade acreditar, que o “cara de paisagem” fosse resolver alguma questão mais delicada e que exigisse maior empenho! E essas leituras fisionômicas, tão utilizadas por gestores florestais de sucesso, abreviavam e encurtavam caminhos! E há quem use, até nos dias atuais, com tremenda eficácia!
Esses retratos, no entanto, perderam um pouco de sua utilidade com o surgimento e valorização do “piloto de escrivaninha” – aquele profissional, quase sempre longe do campo, e que toma decisões que mudam o rumo das empresas, só em cima de números. A encrenca não é desconfiar ou menosprezar os números, mas o peso da planilha ao analisar o desempenho de campo. Por exemplo, as falhas de plantio, podem ser apresentadas, até com duas casas depois da vírgula, mas sem mostrar um “pingo” do esforço feito para cumprimento do serviço! Uma pena, pois é nessa falta de reconhecimento e valorização do esforço das equipes de campo, que se desgastam e se perdem as boas relações entre os que fazem, os que fiscalizam e os que decidem. No fundo, perde a silvicultura!
Mas, e daí, qual a lição que fica?
Nos exemplos de sucesso, o que se observa é grande esforço para que haja integração do fio de bigode, do sangue no olho, e das indispensáveis planilhas de escritório! E a essência dessa integração é a presença no campo, o respeito entre as partes, a ética e o profissionalismo de todos que participam da cadeia produtiva. Tudo com muita conversa e sem surpresas! A expressão – “estava na cara que não ia dar certo” – é o resultado da troca do “sangue no olho” pela “cara de paisagem”!
Nos casos de sucesso, tudo fica facilitado e qualquer problema tem solução, sem desgaste e sem prejuízo a nenhuma das partes – para quem faz ou para quem paga o que fazer.
As observações de campo tem mostrado que isso faz uma tremenda diferença no ambiente de trabalho, na qualidade dos serviços e até na produtividade das florestas. Ganha e ganha muito a silvicultura!
São lições de vida que não se aprende nos bancos escolares. São marcas do DNA de bons profissionais, que sabem comandar, sabem respeitar o “fio de bigode”, acreditam no “sangue no olho”, até para resolver os eventuais problemas apresentados nas planilhas de todos os dias!
🌳Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – Gestão e Serviços Florestais – nbleite@uol.com.br