Alguém pode perguntar: o que tem a ver a silvicultura,o incentivo fiscal e a globalização? Com certeza, a depender do ambiente, poderemos ter as mais diferentes respostas. Para muitos pode até parecer alguma piada sem nenhuma graça!
Mas vamos aos fatos, e a resposta fica por conta e a gosto de cada um. Por volta dos anos 50,60 o Brasil importava celulose e papel em quantidades significativas! A indústria de celulose e papel era insipiente. Fazer celulose com que madeira? Havia indústrias usando o pinheiro do Paraná – nossa Araucária, bambu e crescia o uso do eucalipto.
Embora com poucas informações, sem nenhuma dúvida, o potencial da cultura de eucalipto visando o suprimento das indústrias em formação era indiscutível. O eucalipto trazido por Navarro de Andrade para atender a demanda de dormentes ,dava mostra de suas múltiplas possibilidades de uso! Daí, o Governo Federal engatou o PND – Programa Nacional de Desenvolvimento, que contemplava setores tidos como prioritários para o desenvolvimento do país. Nessa brecha foi alojado o setor de celulose e papel.
Nada por acaso, com certeza, manobras políticas daqui e dali transformaram em lógica o interesse econômico de grupos de plantão. Ou alguém acredita que tenha sido na base do planejamento,da matemática e de grandes estudos estratégicos! Logo ficou evidente a falta de madeira e a necessidade urgente de se plantar, até porque acabava de chegar o Código Florestal e restrições ao corte de florestas!
Nesse ambiente criativo, surgiu o incentivo fiscal para alavancar novos plantios florestais,visando produção de madeira para o setor de celulose, considerado prioritário no PND.
Falava-se também do Programa Nacional de Siderurgia à Carvão Vegetal. Esse sim, um grande consumidor de matas nativas. Infelizmente, florestas incentivadas para a siderurgia pegou e bem,mas a substituição,de fato,da madeira de florestas nativas por madeira de eucalipto para produção de carvão, sempre esteve muito aquém das metas institucionais! As áreas reflorestadas aumentaram e os incentivos fiscais bombaram! Muitas empresas florestais se formaram e souberam aproveitar a oportunidade. Mas essa mesma oportunidade fez com que milhares de empresas oportunistas transformassem a política de incentivos fiscais para reflorestamento num abuso de dinheiro público insustentável!
Do começo ao fim do incentivo fiscal foram anos de histórias, de realizações, de erros e de muitos acertos. Restou um grande patrimônio de florestas plantadas por empresas sérias, que promoveram o desenvolvimento tecnológico da silvicultura brasileira e que deram origem a muitas indústrias, que transformaram a importação de celulose em exportação e formaram indústrias que competem no mercado global! Dá para perceber, onde a silvicultura,incentivo fiscal e globalização se tocam?
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br
