TEMOS FLORESTAS. TEMOS PROFISSIONAIS. MAS TEMOS, DE FATO, UM SETOR FLORESTAL?

Há uma inquietante indagação que insiste em permanecer sem resposta clara, afinal, o que é, de fato, o setor florestal brasileiro?

Fala-se em setor florestal como se fosse um bloco único. Mas, na prática, o que existe é um conjunto de caminhos distintos, e profundamente diferentes entre si, todos conduzidos por profissionais qualificados que, no campo, na indústria e na pesquisa, entregam resultados de enorme relevância para a sociedade.

Nas universidades, esses caminhos se encontram. No dia a dia, no entanto, seguem rumos próprios. Ora a floresta é tratada como patrimônio ambiental. Ora como ativo econômico. E raramente como as duas coisas ao mesmo tempo.

Há a silvicultura de espécies exóticas comerciais, organizada, tecnificada e altamente competitiva em nível internacional, que sustenta um sólido patrimônio industrial construído ao longo de décadas. Nasceu como setor florestal, mas parte relevante de sua condução hoje se insere na lógica do agronegócio.

Há o manejo das florestas nativas, especialmente na Amazônia, que exige rigor técnico e responsabilidade, com enorme potencial de inserção em mercados globais cada vez mais exigentes. Aqui, não há dúvida, trata-se de atividade florestal em sua essência.

Há os programas de recuperação de áreas degradadas, impulsionados por compromissos climáticos e metas ambiciosas, que mobilizam múltiplos atores e se distribuem por diferentes estruturas institucionais.

Há a silvicultura com espécies nativas, ainda em construção, mas com potencial extraordinário para atender a uma nova fronteira de demanda por madeira e serviços ambientais. Um segmento que nasce sob forte identidade ambiental, mas que, inevitavelmente, dialogará com o mundo da produção.

E há, ainda, o universo das florestas de proteção, nos diferentes biomas brasileiros, de papel nobre e insubstituível, responsáveis por conservar a biodiversidade, proteger os recursos hídricos e sustentar o equilíbrio ambiental que viabiliza todas as demais atividades.

São mundos distintos. Com histórias, objetivos e dinâmicas próprias. Todos sustentados por gente preparada, que conhece, executa e entrega.

E é justamente aí que emerge o problema.

Como formular políticas públicas de Estado para um setor que não se enxerga como um só?

No passado, estruturas mais centralizadas, como o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, conseguiam, com as limitações de seu tempo, reunir essas diferentes dimensões sob uma mesma lógica institucional. Com sua extinção, essa função integradora se dissolveu, e a fragmentação ganhou espaço como consequência natural.

Hoje, convivemos com múltiplos arranjos, múltiplas agendas e múltiplas prioridades.

Seria essa fragmentação inevitável? Ou seria ela o reflexo da ausência de uma visão integradora de Estado?

Não faltam florestas. Não faltam profissionais. Não faltam oportunidades.

No fim, a pergunta que permanece é simples, e decisiva.

Teremos a capacidade de transformar essa diversidade em força organizada, ou continuaremos tratando, de forma fragmentada, um dos maiores patrimônios naturais, econômicos e estratégicos do Brasil?

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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