O Brasil construiu um rico patrimônio industrial à base de madeira de florestas plantadas. Mas a pergunta essencial continua sem resposta clara, teremos madeira suficiente para sustentá-lo?
A pergunta é incômoda. Mas precisa ser feita.
Ao longo de décadas, a silvicultura brasileira construiu um dos mais importantes patrimônios industriais do país. Celulose, papel, painéis de madeira, energia, siderurgia, biomateriais, construção em madeira e tantas outras aplicações formam hoje um parque industrial moderno, competitivo e cada vez mais dependente de uma única base, a madeira produzida pelas florestas plantadas.
Mas um antigo nó da questão permanece.
Temos, ou teremos, madeira suficiente para abastecer tudo isso?
A discussão sobre um possível “apagão florestal” surge e desaparece, mas nunca sumiu completamente. Programas de plantio avançam e recuam conforme o humor do mercado. Fala-se muito em fomento florestal, mas iniciativas estruturadas e permanentes continuam raras.
Enquanto isso, novas utilizações da madeira surgem continuamente e ampliam a pressão sobre a matéria-prima.
E, paradoxalmente, a produtividade média das florestas parece caminhar muito mais devagar do que o crescimento das demandas industriais.
Muito se fala em inovação. Mas os materiais genéticos, em grande parte, continuam os mesmos. As expansões caminham para regiões cada vez mais áridas. E os programas de plantio seguem marcados por oscilações e descontinuidades. E mais, os grandes estoques marginais, que já salvaram muita gente, já se esgotaram.
Não se trata de crítica a empresas, instituições de pesquisa ou entidades representativas.
Cada um cumpre o seu papel.
Mas algumas perguntas permanecem no ar.
Quem está fazendo a conta da madeira no Brasil?
Quem está olhando o conjunto das demandas industriais e da base florestal disponível?
Quem pode afirmar, com segurança, que o crescimento do setor não voltará a esbarrar na falta de matéria-prima?
Talvez a silvicultura brasileira esteja apenas repetindo uma preocupação antiga.
A diferença é que hoje o setor é muito maior, muito mais complexo e muito mais estratégico para o país.
Ter resposta clara e sem rodeios é um desafio de todos nós, das empresas, instituições de pesquisas, investidores, entidades representativas e do próprio Governo.
🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br