DO IBDF AO MOSAICO FRAGMENTADO, O QUE SE GANHOU, O QUE SE PERDEU, E O QUE FICOU PELO CAMINHO

Nos anos 1980, o setor florestal brasileiro possuía uma estrutura institucional clara, centralizada e reconhecível. O eixo organizador era o IBDF, Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, órgão que concentrava, em uma única estrutura, praticamente todas as funções estratégicas do setor.

No IBDF estavam reunidas a pesquisa florestal, a proteção dos recursos, o fomento, o ordenamento do mercado, a formulação de políticas públicas, a fiscalização, o monitoramento e a leitura integrada do setor. Era ali que se construía o retrato das florestas brasileiras, suas potencialidades, gargalos, riscos e necessidades. O setor tinha, goste-se ou não do modelo, um centro de gravidade institucional.

Ao redor desse núcleo, existia um ambiente vibrante de entidades representativas, ligadas aos diversos segmentos, florestas plantadas, florestas nativas, produção, indústria, pesquisa, profissionais, conservação. Essas entidades sugeriam, reivindicavam, pressionavam e participavam ativamente da construção do setor e do seu desenvolvimento. Havia conflito, divergência e disputa, mas havia diálogo estruturado e visão de conjunto.

Esse era, em linhas gerais, o quadro de quase 50 anos atrás.

O presente, alta tecnologia, baixa convergência

Quase meio século depois, o cenário é outro. O setor florestal evoluiu enormemente do ponto de vista tecnológico, científico e operacional. Avançamos em genética, silvicultura de precisão, manejo, rastreabilidade, monitoramento remoto, produtividade e eficiência industrial. As florestas plantadas brasileiras estão entre as mais competitivas do mundo.

No entanto, a estrutura institucional que dá suporte a esse setor se fragmentou profundamente.

As funções antes integradas hoje estão dispersas em múltiplos órgãos, ministérios, secretarias e instâncias, muitas vezes sem coordenação, sem visão sistêmica e, em alguns casos, sem diálogo entre si. Pesquisa, fomento, regulação, fiscalização, políticas ambientais, políticas produtivas e desenvolvimento regional operam de forma independente, quase como ilhas.

Se um dia houve sinergia entre essas atividades, hoje ela é difícil de perceber.

Não existe mais uma entidade, pública ou público privada, que junte as peças, que cuide do conjunto do setor florestal brasileiro, considerando simultaneamente suas dimensões econômica, social, ambiental e territorial. O que temos são pedaços funcionais, muitas vezes eficientes isoladamente, mas frágeis como sistema.

Representatividade, exceções que confirmam a regra

O segmento de florestas plantadas é uma exceção relevante. Ele conseguiu se manter unificado, com uma entidade nacional empresarial forte, articulada, que integra representações estaduais e fala com clareza em nome do segmento. Isso garante agenda, previsibilidade, diálogo com o Estado e capacidade de formulação.

Mas quando olhamos para o setor florestal como um todo, o vazio institucional é evidente.

O Serviço Florestal Brasileiro, SFB, que deveria representar a articulação do conjunto das atividades florestais no país, acaba tendo sua atuação concentrada em frentes específicas. Em grande medida, isso decorre de limitações estruturais e institucionais que restringem sua capacidade de coordenar uma visão integrada do setor.

As agendas ligadas ao processo produtivo em geral, aos usos múltiplos do território, às economias regionais, aos produtos não madeireiros, aos serviços ecossistêmicos e às novas oportunidades associadas à bioeconomia permanecem dispersas. São temas estratégicos, com enorme potencial econômico, social e ambiental, mas ainda tratados de forma compartimentalizada, sem uma instância forte que articule o todo.

A SBEF, Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais, talvez seja a única representação transversal que permanece estruturada. Ela trata da profissão florestal, essencial, mas insuficiente para carregar sozinha uma agenda de Estado para o setor.

O que se ganha? Difícil dizer. O que se perde? Muito claro.

É difícil avaliar com precisão o que se ganhou com essa fragmentação institucional. Talvez maior especialização, maior autonomia técnica, menor concentração decisória. Mas esses ganhos são difusos e pouco mensuráveis.

O que se perde, ao contrário, é cristalino.

Perde-se a capacidade de formular políticas públicas estruturais, de longo prazo, voltadas à sustentabilidade de segmentos cuja importância econômica, social e ambiental transcende interesses setoriais. O setor florestal já não é apenas produtivo, ele é estratégico para o desenvolvimento regional, para a transição climática e para a economia nacional.

Esses setores exigiriam um olhar de Estado, capaz de compreender:
• suas necessidades específicas,
• seus limites ambientais,
• seu potencial de crescimento,
• sua função social e territorial,
• sua contribuição para o país no longo prazo.

Sem uma força institucional de conjunto, oportunidades que surgem em diferentes segmentos não são alavancadas, não ganham escala, não despertam interesse estratégico do Estado. Falta quem represente esses novos arranjos produtivos, quem organize suas demandas e quem traduza seu potencial em política pública concreta. Estamos perdendo oportunidades emergentes.

Um país continental, um setor estratégico e um vazio institucional

Em um país continental como o Brasil, com enorme diversidade ecológica e produtiva, as florestas, nativas e plantadas, oferecem possibilidades únicas. Elas sustentam cadeias produtivas, economias regionais, serviços ambientais e novas agendas ligadas ao clima, à bioeconomia e à sustentabilidade.

Tudo isso mereceria uma força institucional nacional, capaz de articular interesses, disputar políticas públicas de Estado e sustentar uma visão estratégica para o setor florestal brasileiro.

O paradoxo é evidente.
Nunca tivemos tantas oportunidades, e nunca estivemos tão desarticulados institucionalmente.

E essa talvez seja uma das grandes questões silenciosas do setor florestal nos dias atuais. Um grande desafio a todos, aos segmentos consolidados e bem organizados e aos segmentos emergentes que necessitam de apoio para se organizarem. Só uma visão de Estado de curto, médio e longo prazo vai dar sustentabilidade às riquezas florestais brasileiras.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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