A história do setor florestal brasileiro mostra que conquistas científicas, econômicas e ambientais só se transformam em políticas públicas duradouras quando há entidades fortes, organizadas e legitimadas por lideranças atuantes.
O protagonismo institucional sempre foi decisivo para o avanço da silvicultura no país. Hoje, mais do que nunca, é preciso fortalecê-lo para enfrentar os desafios atuais e aproveitar as novas oportunidades que surgem.
Bons exemplos não faltam. O Código Florestal de 1965, os incentivos fiscais de 1967 e a construção de uma base legal e técnica que fez do Brasil uma referência mundial em florestas plantadas só se concretizou graças à articulação institucional.
Entidades como a Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS), a então Bracelpa (Associação Brasileira de Celulose e Papel), a ABRACAVE (Associação Brasileira dos Produtores de Carvão Vegetal), a ARBRA (Associação dos Reflorestadores do Brasil) e uma ampla rede de instituições estaduais desempenharam papéis fundamentais.
Elas conectaram a realidade regional com a agenda nacional e impulsionaram o setor como vetor de desenvolvimento econômico, social e ambiental.
Essas organizações foram responsáveis por negociações legislativas, criação de sistemas de certificação como o Cerflor e a introdução do FSC (Forest Stewardship Council) no país. Lutaram por crédito rural específico, incentivos fiscais e inserção do setor florestal em fóruns internacionais.
Nada disso seria possível sem entidades representativas atuando com competência técnica e visão de futuro.
Os congressos florestais, realizados em conjunto pela SBS e SBEF (Sociedade Brasileira dos Engenheiros Florestais), cumpriram um papel integrador: reuniam a cadeia produtiva para conhecer, discutir e aplicar os avanços científicos e tecnológicos promovidos por diversas instituições de pesquisa.
Além disso, serviram de espaço de formação e articulação de lideranças, muitas das quais dedicaram parte de sua trajetória profissional à representação institucional.
No entanto, apesar do crescimento contínuo do setor, a sua diversidade atual ainda não é plenamente representada.
Empresas e empreendimentos voltados ao manejo sustentável de florestas nativas, sobretudo na Amazônia, enfrentam enormes desafios técnicos, logísticos e regulatórios.
Trata-se de uma atividade estratégica para a conservação da biodiversidade, a geração de renda local e o uso sustentável dos recursos florestais nativos. No entanto, esse segmento carece de representação institucional sólida, capaz de defender seus interesses, propor políticas públicas específicas, garantir acesso ao financiamento e promover a valorização do manejo florestal como instrumento de preservação e desenvolvimento.
Setores emergentes também enfrentam o mesmo dilema.
A recuperação de áreas degradadas com espécies nativas, o mercado de carbono e o conjunto de empresas terceirizadas — responsáveis por mais de 70% das operações florestais — têm grande impacto social e econômico, mas pouca presença em espaços decisórios.
São centenas de empreendimentos e milhares de empregos que seguem invisíveis institucionalmente.
Mais grave ainda é a perda de espaço político estratégico. A exclusão do setor florestal do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) é um exemplo claro disso.
Essa ausência coloca em risco a continuidade de políticas públicas estruturantes e reduz a capacidade de influência do setor em decisões cruciais para o presente e o futuro das florestas brasileiras.
A Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) — entidade nacional que representa com excelência as empresas da indústria de base florestal — vem desempenhando um papel importante na articulação e promoção do setor, tanto no Brasil quanto no exterior.
Ela também congrega diversas entidades estaduais, mas talvez não possa, nem deva, assumir sozinha a representação de um setor tão amplo, complexo e em transformação.
É urgente resgatar, fortalecer e diversificar as formas de representação institucional.
Isso passa por valorizar ainda mais as entidades regionais, integrar os segmentos especializados que vêm surgindo e, acima de tudo, abrir espaço para que novas gerações de profissionais e lideranças assumam esse protagonismo com visão de futuro e responsabilidade histórica.
Nenhum setor cresce ou se sustenta sem representação forte, legítima e técnica.
Se o Brasil hoje é referência mundial em silvicultura, isso se deve a uma organização institucional construída com trabalho, liderança e compromisso coletivo.
É hora de reconhecer esse legado e garantir que a floresta brasileira — plantada ou nativa — continue sendo uma aliada estratégica do desenvolvimento sustentável, da economia e da vida.
🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br