Numa conversa muita proveitosa entre profissionais e estudantes, fomos surpreendidos por interessante pergunta:”Quais as causas que fazem com que as decisões florestais, em algumas empresas, não dependam dos florestais”? E ainda completou com uma “sinuca de bico” – “parece que a empresa muda o foco e esquece das florestas”. Um pouco mais de conversa, e percebemos a pertinência da preocupação!
O que responder? A justificativa mais razoável parece ser – “numa empresa florestal, depois de uma boa gestão e com estoques de madeira em níveis satisfatórios, fica a sensação de que tudo está resolvido! E daí para frente, o grande negócio passa a ser colher e transportar a madeira no tempo preciso e a custos competitivos! Essa fase envolve recursos financeiros gigantescos e a oportunidade de surgir novos protagonistas para cuidar das florestas, que se transformaram em estoque de madeira, é muito grande”! Essa parece ser a lógica da mudança de foco. Para muitos, essas empresas que vivem da madeira e quando se sentem abastecidas não dão a devida atenção à silvicultura, tem cultura mais extrativista do que florestal!
Mas o “perguntador”, insistiu –“ e se houver problema com as florestas, faltar madeira, e se forem necessárias mudanças nos procedimentos operacionais”? Será que o gestor de estoque terá sensibilidade e convicção para conseguir mudanças, a tempo e à hora? Realmente, tivemos que admitir que algumas dificuldades poderão surgir ao longo do tempo! Na verdade, com madeira à disposição e tomado por tantas novidades, máquinas e equipamentos modernos e caros, ferramentas digitais para controles e a pressão permanente para manutenção do fluxo de suprimento de madeira, não é de se estranhar que a exatidão matemática sufoque a biologia florestal. Com estoques de madeira na tampa, deixa de existir razões para investimentos em pesquisas, pesquisadores e experimentações com florestas! Grandes investimentos são direcionados à logística, à colheita, em boas estradas e informações, cada vez mais precisas. Enquanto isso, a silvicultura mofa e empobrece!
Nesses casos, em que os ganhos no suprimento de madeira passa a ser o grande prêmio a ser alcançado, é importante que a silvicultura não seja marginalizada. E que não se deixe nascer e morrer os metros cúbicos adicionais da produtividade com o “japonês do melhoramento” ou com o pessoal que mexe com florestas. E o interessante é que, mesmo nesses casos, a silvicultura sustentável vai continuar firme e forte, mas só “nos discursos e nos relatórios anuais”! Diante de tais circunstâncias, vida que segue… Pode ser que lá na frente surjam dificuldades no suprimento de madeira, e se constate que nem a competência de grandes silvicultores promove estoques inesgotáveis de madeira. Nesses momentos, em que acaba o ciclo da bonança, e recomeça a correria atrás de florestas, surgem as grandes encrencas e sempre algum pescoço rola. Esse filme é conhecido!
O sucesso de empreendimentos à base de madeira mostra que a presença de profissionais de florestas, tem se tornado, imprescindível, na tomada de decisões estratégicas e valorização equilibrada de todas as fases operacionais da floresta – na formação, adequação, manutenção, uso e garantia dos estoques de madeira. É assim que se dá sustentabilidade à silvicultura e se consolida a cultura florestal numa empresa. E há de se ter então, cuidados permanentes com as florestas em suas mais diversas funções. Como na manutenção e equilíbrio dos sistemas hidrológicos, na harmonização da paisagem, na proteção da biodiversidade regional, proteção de solos, integração com comunidades e fornecedora de madeira para uso industrial, também!
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – Gestão e Serviços Florestais – nbleite@uol.com.br