Há alguns anos atrás, floresta plantada era sinônimo de poupança verde. Era receita certa. E muitos produtores ganharam dinheiro com produção de madeira. Mercado garantido e grandes programas de fomento, quando valia o “fio de bigode”. Tratado e respeitado diziam a mesma coisa. E assim, os plantios foram crescendo. Nem a distância do consumidor assustava. Essa euforia provocou a formação de plantios independentes, e em muitos casos, sem a devida preocupação com dois aspectos básicos : uso de tecnologia para se conseguir boas florestas e falta de atenção com a distância do consumidor.
Áreas florestadas de baixa produtividade, com acessos difíceis e a grandes distâncias dos consumidores transformaram as almejadas poupanças em verdadeiros “micos”. E o pior, aumentaram as estatísticas da oferta, e acentuaram a sensação de que está sobrando madeira. E o preço despencou. O impacto repercutiu em geral e todos perderam. Até aquela madeira na cozinha do consumidor passou a ser medida com a mesma régua!
E muitas negociações de madeira, tornaram-se desastrosas. Segundo, nosso amigo Eng. Manoel de Freitas, essas florestas em condições desfavoráveis para negociação constituem um verdadeiro “volume morto de florestas”. Essa situação ficou ainda mais agravada com o avanço dos sistemas mecanizados de colheita. Equipamentos caríssimos e com operadores qualificados exigem condições operacionais especiais para otimizar seus rendimentos: áreas planas e com tamanho, que justifique o deslocamento de todos os equipamentos.
E nessa onda, muitas florestas de qualidade e nas vizinhanças de consumidores, mas pela impossibilidade de plena mecanização, estão sendo ‘matadas’ e passam a fazer parte do volume morto, também. Paradoxalmente, um morto vivo! Atrapalharam e embaralharam todo o mercado! O desequilíbrio entre oferta e demanda de madeira é resultado de inúmeras variáveis e o “volume morto de floresta” não pode, isoladamente, responder pelo desarranjo de mercado. Mas merece as devidas ponderações.
Da mesma forma, há de se enfatizar, que toda essa seletividade, seria anulada se o apetite dos grandes consumidores estivesse aguçado. Ficam algumas impressões para reflexão;
- Há muita madeira sobrando, mas em condições operacionais desfavoráveis. Por falta de tecnologia , localização inadequada, ou ambos. Constituem o “volume morto de florestas”. É o custo de erros!
- A mecanização da colheita se transformou em novo indicador seletivo para comercialização das florestas. E a poupança verde, de fato, passou a ter “cara bem definida” – floresta produtiva, próxima do mercado consumidor e em condições favoráveis para mecanização ( relevo e tamanho da área).
- O volume morto, quando está morto por conveniência do comprador – florestas boas, próximas do consumidor, mas com dificuldades operacionais – afasta os produtores, que se transformam em inimigos da silvicultura;
- Há muita gente apostando que essa postura empresarial, de curto prazo, pode gerar sérias dificuldades para o abastecimento futuro de muitas indústrias. Há quem aposte na falta de madeira, a longo prazo!
- Fica um alerta! Se o produtor tem madeira para vender é bom saber se a sua floresta faz parte do volume morto, do volume que está sendo matado ou se é uma bela poupança verde. E cuidado com a régua!
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br
