A Comunidade de Silvicultura preparou uma relação de tópicos para avaliar as marcas que o ano de 2016 deixaram no setor. O objetivo é obter a opinião dos silvicultores. Nada de identificar doenças, mas as dores, se existirem! E que essa reflexão sirva para mais discussões e alertas a todos que atuam e se interessam pelo setor. Como provocação a Comunidade de Silvicultura apresenta suas impressões para críticas e sugestões. Assim, talvez fique mais fácil identificar a dor: na cabeça ou no pé!
- Nível tecnológico dos trabalhos de campo:
Melhorou – aumentou a preocupação em se fazer bem feito. Grandes áreas não significam qualidade, e muitas barbeiragens estão ficando expostas e criando constrangimentos. Os inevitáveis impactos na produção de madeira estão exigindo melhorias operacionais. Reduzir custo está deixando de ser obrigação e perdendo para competência;
- Distância para aquisição de madeira:
Piorou – aumentou a distância. Há muita gente buscando madeira a grandes distâncias. Madeira a preço de repolho e vizinhos insatisfeitos. Um contraste incompreensível. Mas, com certeza, terá fim. E outros responderão pelas consequências!
- Produtividade média das florestas:
Piorou – é o reflexo de plantios mal feitos – mato-competição, formiga, pragas, fogo, clones, etc. Está diminuindo a produtividade média e fica flagrante a necessidade de ajustes no processo de produção de madeira. A dúvida é quanto ao momento dos inevitáveis ajustes! Pode faltar madeira? É bom lembrar que o remédio é só, a longo prazo;
- Problemas com pragas e doenças:
Piorou – aumentou significativamente os sinais de novos ataques. O setor pode ser surpreendido. Muita gente ainda não se deu conta dos riscos e da necessidade de medidas preventivas. Há especialistas que acreditam que o grande problema é desinformação. Muito mais que o interesse por medidas preventivas;
- Preço da madeira:
Piorou – há muitos produtores desistindo de suas florestas e de seus programas de plantio. O valor da madeira está muito aquém do desejado e esperado. E o custo para se fazer a floresta cresceu. O produtor aprendeu a fazer conta, e está querendo sair do setor. Uma pena!
- Reflorestamentos para conservação e proteção:
Melhorou – aumentou o interesse e a necessidade está se evidenciando. Mas enquanto esses plantios não se transformarem em negócio, o assunto fica só na falação. Mas a falação quando aumenta pode provocar atitudes. Há bons exemplos a serem seguidos;
- Possibilidade de se usar a madeira como alternativa energética:
Melhorou – ficou evidente a necessidade de se encontrar alternativas para a energia fóssil. A silvicultura precisa desgarrar-se da dependência exclusiva dos grandes consumidores. Eucalipto para serra está se tornando uma realidade e a biomassa para energia está se tornando uma realidade. Até a atenção dos tradicionais consumidores está crescendo. Ótimo sinal, pois esse pessoal faz acontecer;
- Estruturação do Programa Nacional de Florestas Plantadas:
Piorou – sumiu. Ninguém sabe informar. É a falência institucional da silvicultura, em nível de Governo Federal. Fica o desafio: quando e como reorganizar?
- Ações governamentais para alavancar a atividade:
Piorou – não houve nenhum movimento. E a silvicultura precisa do Governo para algumas realizações. Talvez nem tanto de dinheiro, mas muito de políticas que mostrem as diretrizes de longo prazo, que integrem setores , infra- estrutura, etc. Uma pena!!
- Recursos governamentais para pesquisas florestais:
Estagnou – a pesquisa continua dependendo de recursos das grandes empresas para resolver seus problemas. Felizmente, o oxigênio do dia-a-dia está mantido. Avanços? Só por conta e exclusividade dos interessados. Há instituições e profissionais com muita capacidade a oferecer;
- Pesquisas com as espécies florestais nativas:
Estagnou – continuamos pobres no conhecimento de nossa rica diversidade de espécies florestais nativas! Uma vergonha para a silvicultura brasileira. A quem reclamar? Quem vai reclamar? Há mais de 50 anos, a produtividade do eucalipto não passava de 20 metros cúbicos por hectare/ano, muito parecido com o que se consegue com algumas espécies nativas e quase sem pesquisa. Grandes investimentos em pesquisas e experimentações elevaram a produtividade das espécies exóticas comerciais. Um alento às pesquisas com nossas espécies nativas. Um desafio para a engenharia florestal do Brasil !
- Novos empreendimentos florestais:
Estagnou – sumiram os novos empreendimento e os investidores perderam um pouco do entusiasmo. O ambiente econômico e político atrapalhou, até o interesse das grandes TIMOS. Há muitas oportunidades de negócio e, com certeza, aos sinais de estabilização, esse pessoal deverá voltar a investir;
- Mato Grosso do Sul como polo de silvicultura:
Melhorou – continua crescendo. Muitas dúvidas e muitas demandas. Trabalhos maravilhosos ao lado de graves e inaceitáveis problemas! Processo de crescimento irreversível e com muitas necessidades logísticas. Há necessidade de se integrar interesses e de se enriquecer o embasamento tecnológico. Um grande desafio para os empreendimentos perenes;
- Áreas com plantios de pinus:
Piorou – diminuiu, quase sumiu! Poderemos enfrentar problemas futuros. O produtor de floresta está muito insatisfeito com o preço da madeira. A longo prazo , não se vislumbram perspectivas. Faltam políticas públicas. Ainda está valendo a competência e a iniciativa de poucos e brilhantes profissionais;
- Uso da madeira dos desbastes de pinus:
Piorou – a madeira está muito desvalorizada e o produtor desanimado está fugindo do setor. Foi um ano de debandada. Vem reflexo lá na frente!
- Surgimento de novas espécies para cultivo:
Melhorou – aumentou significativamente a quantidade de interessados em plantar espécies alternativas. Precisaria mais experimentações, mais divulgação e mais envolvimento de instituições de pesquisas e universidades. Bom para a silvicultura. Sinal inquestionável de que há gente interessada em fazer floresta e querem sair do eucalipto ou pinus;
- Serviços silviculturais:
Melhorou – mais preocupações com nutrição, manejo do solo, mato-competição. Aumentou a preocupação em se fazer bem feito para não se perder produtividade. O silvicultor está sendo mais valorizado. Reduzir custo está deixando de ser uma obrigação. Está sendo muito valorizado o prestador de serviço, que tem capacidade de colaborar na decisão técnica. Está sumindo o simples cumpridor de cronograma, a custo mais baixo! A silvicultura se enriquece;
- Produção de mudas:
Estagnou – diminuíram-se os produtores. Espera-se que os remanescentes sejam valorizados;
- Certificação florestal:
Melhorou – continua sendo valorizada. Tem muita credibilidade e talvez possa ajudar ainda mais o desenvolvimento do setor;
- Representatividade institucional da silvicultura:
Piorou – ninguém sabe informar o que está acontecendo. A silvicultura não pode continuar assim, sob pena de se perder oportunidades de negócio e a competitividade, no longo prazo;
- Legislação florestal:
Estagnou – nenhuma mudança significativa. Nenhuma discussão. Os problemas velhos continuam sem solução e são esquecidos. Vem bomba, lá na frente;
- Programas de fomento florestal:
Piorou – muitos descontentes. Muita falação. Muita desinformação. Isso precisa mudar para o bem e a credibilidade da silvicultura. Há bons exemplos a serem seguidos. É imprescindível para sustentabilidade da atividade. Há muitos, que apontam como o grande problema que se agravou no ano! Aumentou, de forma significativa, a quantidade de pequenos e médios produtores insatisfeitos com a atividade!
- Mercado externo:
Estagnou – falta infraestrutura e logística para criar condições de maior competitividade ao país. Há oportunidades para crescimento e desenvolvimento. É essencial a atuação dos Governos Federal e Estadual. O desenvolvimento continua por conta, criatividade e iniciativa das empresas;
- A integração e colaboração entre empresas:
Estagnou – aumentou a competição entre empresas. Uma disputa em que todos perdem e a silvicultura diminui a competitividade. Há muitos problemas que dependem da colaboração de todos. A silvicultura brasileira sempre dependeu das empresas: da integração entre elas e da integração com instituições de pesquisas;
- Reconhecimento social e ambiental da silvicultura:
Piorou – há movimentos que ressurgem por falta de comunicação. Há muita discussão de problemas resolvidos. Há trabalhos de grande importância sem a devida propaganda, em nível da sociedade urbana. Esse pessoal faz leis e continua distante da realidade social e ambiental do setor. Não se pode deixar de reconhecer o esforço gigantesco que muitas empresas fazem para valorizar o setor, mas não se pode acreditar que as encrencas estejam sendo equacionadas. Será que essa comunicação está mal direcionada?
Aguardamos e agradecemos, desde já, os comentários.
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br
