No período em que trabalhamos como Diretor de Reflorestamento, do IBDF, entre os anos de 77 e 79, tivemos oportunidade de passar por momentos especiais. Problemas, soluções, desafios, contribuições, curiosidades, abusos, ousadias, encrencas, enfim….. de tudo. Daí, muitas lições de vida e para a vida. Merecem registro e dão uma boa idéia das trilhas seguidas pela silvicultura para chegar até onde estamos! Seguem relatos interessantes de enorme lista de momentos especiais;
- Visitas que resolviam….
Durante o período em que estivemos à frente do Departamento de Reflorestamento do IBDF, juntamente com a equipe de colaboradores, tivemos oportunidade de passar por momentos de grandes emoções…. De vez em quando, fazíamos incertas em empresas reflorestadoras, sempre por conta de alguma polêmica ou comportamento duvidoso! Incrível, como as desconfiadas premissas sempre se confirmavam. Numa dessas incursões, fomos bater no Norte de Minas, nas proximidades de São João do Paraiso. Uma grande empresa lamentava o fato de termos diminuído significativamente seu programa por conta de atrasos em seus plantios. Uma das alegações da empresa era o grande investimento feito na aquisição de toneladas de sementes melhoradas – na ocasião, nem se cogitava de produção de mudas clonadas. Fomos fazer uma visita à região e aproveitamos para visitar o viveiro da referida empresa.
A chegada de surpresa , com certeza, facilitou o “ flagra” e não deu chance para ousadas artimanhas. Pegamos, de fato, no viveiro um estoque com mais de 10 toneladas de sementes e sem nenhuma identificação, que comprovasse qualquer qualidade superior! Não houve dúvida! Quando perguntaram a respeito do que tínhamos achado do viveiro, nem demos chance para qualquer desculpa : “ uma porcaria!” e completamos :” a empresa deveria queimar toda essa semente”. Alguns minutos depois, estávamos diante de tremenda fogueira, em pleno dia! Essa empresa, de grande peso político, depois de alguns anos, se tornou uma grande encrenca para o IBDF!
2-Um Diretor de m….., fechou minha empresa!
Foi exatamente assim, que ouvimos de um “ meio conhecido”, numa festa de aniversário familiar, quando perguntamos a respeito do andamento de seus negócios . A resposta foi clara: “as coisas iam muito bem, mas de repente um Diretor de m…. do IBDF fechou minha empresa”. O “meio conhecido” nem desconfiava, que o tal Diretor, estava na frente dele. Não demos bola e continuamos: “o que sua empresa fazia?” e a resposta, bem redonda, não deixou nenhuma dúvida, a respeito do típico “picareta de ïncentivo fiscal”: “fazia projeto de palmito com incentivos fiscais, no meio dos palmitais da Serra do Mar”! E continuou todo desafiador: “quero ver se vão ter coragem de acabar com o babaçu?”. O moço não conhecia o pacote publicado. Foi difícil, mas conveniente, segurar a pergunta : “de que lado estava a merda?”
- O grosseiro sinal do fim dos incentivos fiscais
Algumas experiências da vida nunca se apagam da memória! Numa mudança de ministros do Governo Figueiredo, encontrei-me no Aeroporto de Brasília, na sala de embarque, com o nosso amigo Leo Chueri, na ocasião, grande empreendedor e entusiasta do setor de reflorestamento. Na mesma sala, encontrava-se enorme e animado grupo da moçada de S.Paulo, vindos para posse do Ministro da Agricultura – Prof. Delfim Netto. O Leo Chueri tinha ótimo contato com o pessoal e prevendo que essa turma ia questionar o incentivo fiscal, correu apresentar-me a um forte candidato a assessor do Ministro.
O fato de ter sido Diretor de Reflorestamento, segundo o Leo, credenciava-me para uma conversa a respeito de assunto que parecia tão desconhecido para o “ilustre”, que chegava. Antes de qualquer formalidade fui indagado, seguidamente: “ Ah, você trabalhou no IBDF? Ah, então você conhece a história dos incentivos fiscais? Ah, que bom… então, me defina os incentivos fiscais com duas palavras! Antes, que eu imaginasse qualquer resposta, o “ilustre” tascou : “ uma merda”. Não falei nada e nem deu tempo para qualquer explicação do desapontado Leo. Saímos boquiabertos, e comentamos – “ parece que está morrendo os incentivos fiscais para o setor”.
Não erramos. Durou o suficiente para que se armasse o cenário com as devidas justificativas ! Só lembrando: era muito simples fazer isso ou aquilo, mas foi muito simples também, acabar com a política pública, que contribuiu significativamente para o crescimento da silvicultura brasileira! E,até hoje, estamos esperando alguma coisa no lugar!
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br
