Em meio às inúmeras manifestações de preocupações com respeito aos compromissos assumidos e ratificados pelo Governo do Brasil, em Paris, na Convenção do Clima, a Comunidade de Silvicultura recebeu mensagem muito oportuna de nosso amigo e ex-Ministro José Carlos Carvalho. Com muita honra e satisfação, compartilhamos com nossos amigos. Imperdível para reflexão de todos, que lutam pelo fortalecimento da silvicultura brasileira! Caro amigo e sempre Ministro, a Comunidade de Silvicultura orgulhosamente agradece!
“Prezado Nelson Barboza Leite, você coloca uma questão crucial relativamente ao setor florestal, especialmente na área de restauração, através da silvicultura, que não está sendo percebida adequadamente, a não ser pelas lideranças diretamente envolvidas nesse tema. É importante destacar que não é crucial apenas para as atividades florestais, longamente relegadas a plano secundário nas políticas públicas brasileiras, mas, também e sobretudo, para honrar os compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris. As pessoas comuns não se deram conta, ainda, que a NDC brasileira, que equivale às metas do Acordo, está praticamente ancorada no setor florestal! Isto é, foi atribuída ao setor florestal brasileiro a responsabilidade de liderar os esforços que iremos fazer para reduzir e mitigar as emissões dos gases de efeito estufa – GEF. Isso ocorrerá, como sabemos, de duas maneiras: i) a restauração de 12 milhões de hectares de florestas e ii) a redução de desmatamento na Amazônia e em outros biomas. Há, ainda, o plantio de florestas na outra meta de recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, sendo parte com projetos de integração lavoura-pecuária-florestas. Além disso, temos pela frente as obrigatoriedade de cumprir a nova lei florestal, que vai exigir nos próximos anos o esforço hercúleo de plantio de mais de 25 milhões de hectares de novas florestas para recompor APP e RL, sem contar os esforços de plantio para atender as demandas de natureza econômica, a depender dos cenários prospectivos em face da deplorável situação econômica brasileira. Em cumprimento à nova Lei Florestal, o País vem executando o Cadastro Ambiental Rural, através do qual estamos conhecendo de forma pioneira o passivo ambiental das propriedades rurais em relação à supressão histórica da vegetação, especialmente das florestas. É importante louvar o trabalho do SFB nessa esfera. Todavia, não podemos ignorar a inércia do governo e da sociedade quando se analisa as iniciativas a serem tomadas para organizar os meios de implementação da Lei Florestal, via os PRA, e toda a grande e inadiável estruturação das medidas para executar e cumprir as metas estipuladas na NDC apresentada ao Secretariado da Convenção de Mudanças Climáticas da ONU, no âmbito do Acordo de Paris. Não consigo entender a “tranquilidade” com que estamos lidando com essa questão, quando lembramos que teremos que reflorestar e recuperar por meio de regeneração 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Nada, absolutamente, nada está sendo feito em áreas vitais para cumprir essa meta, destacando: rede de coleta de sementes, infraestrutura de produção de mudas e serviço de assistência técnica. Temos um extraordinário desafio e uma oportunidade única, diria até que essa realidade gerou uma “oportunidade compulsória” para a silvicultura brasileira. Creio que competência profissional não nos falta, mas teremos que conceber uma política florestal que responda a esses desafios, baseada nos novos conceitos atrelados às florestas, principalmente à multifuncionalidade do setor e, mais uma vez, refundar as nossas instituições florestais, aniquiladas pela ambiguidade que tem dominado o setor, pela complexidade do pluralismo de sua concepção, pelas incertezas do governo e pela crônica apatia do setor privado florestal brasileiro.”
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br
