Recebi de um pequeno produtor e grande amigo, sugestão interessante e oportuna: “fale alguma coisa sobre o que significa fechar a conta, numa linguagem de produtor rural, que não entende nada de computador”! Não precisou muita mágica para entender o recado – a mensagem é para produtor que não controla o retorno financeiro, e nem imagina se o valor recebido pela venda da madeira, cobre os custos de formação e manutenção das florestas – na verdade, grande parte desse pessoal não sabe nem quanto custa fazer floresta. Mistura o trabalho da família, máquinas para fazer tudo, etc. Faz floresta, faz pasto, planta milho e tira leite! Imaginar que esse produtor saiba quando fecha a conta, é quase igual querer que ele “entenda grego” . E o amigo completou: “às vezes, a gente não quer vender, porque todo mundo diz que o preço está muito ruim, mas de repente, até agradecemos quando alguém compra. Nem importa o preço, pois o dinheiro vai servir para saldar algum compromisso, pagar uma prestação disso ou daquilo. Esse dinheiro cai do céu! Nem importa se o valor foi muito baixo! O que interessa é que tira a gente do sufoco”!
Esse amigo, representa o produtor rural típico, que trabalha com agricultura e pecuária e que destinou parte de sua propriedade ao plantio de eucalipto- é o famoso fomentado, que existe em muitas regiões. Participou, lá atrás, de reunião sobre fomento florestal e ouviu dizer que plantar eucalipto seria uma poupança verde! E completou a conversa dizendo: “só consegui vender a madeira, porque minha floresta estava muito bem cuidada e de fácil acesso para máquinas e caminhão”. E deu o toque final: “os meus vizinhos não tiveram oportunidade nem de oferecer a madeira, e alguns foram até liberados para vender para quem aparecesse”! Essa história merece algumas considerações, antes de se falar na tal de “fechar a conta”:
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- Essa é a mesma história de muitos fomentados florestais. E as estatísticas mostram que cerca de 30 % da madeira que atende ao consumo industrial passa pela porteira do produtor! E os discursos falam de silvicultura competitiva, sustentável e certificada!
- Há exceções, tanto do lado dos produtores, quanto do lado dos que consomem madeira de fomentados. Mas respeitar o produtor e pagar um valor justo que remunere toda a atividade, nunca poderia ser exceção! Deveria ser uma obrigação a ser seguida para quem fala em sustentabilidade. Com certeza, quem compra, conhece e manuseia bem a planilha. E mais importante, sabe qual é o preço justo! Mas o mercado……!
- Há dados que mostram que a área plantada no entorno dos grandes consumidores teria condições de aumentar significativamente com mais plantios de fomentados. Mas, ao contrário, os programas de fomento estão diminuindo cada vez mais. Um sinal inequívoco, de que “a galinha dos ovos de ouro está assustada”. Uns acham até que ela já sentiu alguma pedrada!
- Precisamos encontrar mecanismos que revertam essa situação. Todos vão ganhar e vamos dar sustentabilidade ao produtor, que possui terras ociosas e em boas condições para formar floresta. Ele não sabe fazer conta, mas ouve. E se afasta da atividade. Em todo canto sempre encontra alguém lamentando o valor miserável da madeira! Quando começar a ouvir coisa diferente, com certeza, ele voltará a procurar alguém para ajudá-lo a fazer floresta. A silvicultura precisa contemplar o pequeno, médio e grande produtor. Todos que produzem, têm custos e quando vendem a madeira precisam ser remunerados. É muito diferente da silvicultura dos grandes consumidores, que, na maioria dos casos, se justifica, só com o atendimento pleno das indústrias. Nem precisa se preocupar em ser sustentável. Precisa produzir madeira! Sustentabilidade para esse pessoal é quase um luxo. É muito mais instrumento de marketing do que qualquer outra coisa! É como filho rico, o pai paga!
Voltando à mensagem original: o que é fechar a conta! Na verdade, é um exercício bem simples para quem faz os controles de custos e sabe quanto quer ganhar com os investimentos feitos. Quando o preço da madeira vendida atinge determinado valor, a planilha mostra que a receita foi suficiente para pagar todos os custos e o lucro almejado foi atingido! A conta fechou!
E como faz o produtor sem controles e sem planilha? Para esses é mais complicado! Para esses vale o ouvido, as conversas e informações de publicações ou de amigos. Situação de extrema vulnerabilidade, em que o tamanho do bolso tem grande importância! E é nessa situação de insegurança, que é importante a postura de respeito e responsabilidade do consumidor que fomenta!
É o momento de se dar apoio e segurança ao fomentado. O consumidor pode até dizer que não pode, mas sabe quanto precisa pagar e quando deve comprar. Se agir com respeito ao fomentado e aos compromissos assumidos, independente da crueldade circunstancial e cíclica de mercado, a conta do produtor vai fechar! Essa conta é controlada de ouvido! E a sensibilidade do produtor é muito acurada! Enquanto, nas conversas entre amigos, o assunto continuar sendo o preço baixo da madeira, o produtor, mesmo que não controle seus custos, pode ter certeza, de que a conta da madeira não está fechando!
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br
