Desde a segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, já tivemos mais de quatro períodos governamentais diferentes e sempre o setor, através de suas entidades representativas, esteve presente, nos primeiros dias de Governo, mostrando seus pleitos, suas reivindicações. Na verdade, virou um café requentado! Enfim, continuava a esperança! Já se vão quase 20 anos, e de novo, estamos diante do mesmo quadro – gente nova precisando saber de nossas dificuldades, de nossas necessidades e de nossas possibilidades!
Os tempos são outros. Algumas coisas mudaram, nem sempre aquilo que precisava mudar, mas há coisas, que precisam mudar! O que não podemos é desistir! Vamos juntar pleitos antigos, mudanças realizadas, promessas, etc. e vamos em frente. Lá atrás, há mais de 10 anos, foi feita uma relação de perguntas para se medir, naquele tempo, a necessidade de pleitos e reivindicações;
– Naquela ocasião, havia fatos novos, que justificassem ajustes e mudanças?
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– Os grandes problemas, reclamados, no século passado, tinham sido resolvidos?
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– Os novos empreendedores nas novas fronteiras sentiam-se confortáveis para continuarem investindo?
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– A complexidade das legislações tinha sido resolvida? A corrupção tinha acabado?
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– Havia financiamentos em condições adequadas para a atividade?
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– A política de fomento florestal tinha dado certo ? E os fomentados estavam satisfeitos?
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-Tinha sido resolvida a questão institucional do setor?
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– Existia política de governo para acompanhar o crescimento setorial?
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– O Código Florestal tinha sido modificado para regulamentar as atividades florestais?
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– Você sabia onde discutir, ou a quem sugerir ou reclamar das políticas públicas do setor?
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Pode parecer piada! Mas essas questões já eram colocadas, há quase 20 anos atrás! E o mais interessante: representava o esforço conjunto de inúmeras entidades do setor. Talvez pecasse no conteúdo, mas era a “legitima vontade” dos diferentes segmentos da silvicultura. Esse aspecto merece destaque. Aliás, muita reflexão!
As indagações levavam qualquer silvicultor, mais atento, a responder “não” à grande maioria dos questionamentos apresentados.
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No entanto, em novos tempos, não podemos dar um “não” a tudo. Há considerações que precisam ser pontuadas. De forma resumida, teríamos a responder: há fatos novos que exigem mudanças e adequações. Os grandes problemas – por exemplo, legislação e financiamentos – vagueiam e não foram resolvidos. Os investidores nas novas fronteiras continuam lutando por conta e risco próprio. A legislação foi revirada, mas não se consolidou e ainda atrapalha. O financiamento continua nas estatísticas e discursos, menos no campo. Continua uma promessa. A política de fomento embalou, parou e os fomentados berram! Mudamos de endereço institucional, mas não temos sala! O Código Florestal foi mexido, mas deixou remendos inacabados. E continuamos sem ter para quem se queixar! Em resumo; é de chorar!
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A última turma que desocupou a sala falou muito em Grupos de Trabalho, em nível de Governo Federal, com o objetivo de se definir políticas públicas para o setor, mas nada foi apresentado de concreto. E também não conhecemos ninguém que tenha participado de alguma reunião para discutir assuntos relacionados a Programa Nacional. Com certeza, pelo falatório, há trabalhos em desenvolvimento. Para se fazer de forma isolada, sem ouvir e nem discutir, deve ser gente que conhece tudo do setor!. Se o trabalho estiver pronto para discussão, menos mal. Mas se estiver pronto para ser levado e sem a devida discussão, entre os que fazem a silvicultura, a chance de agradar e impressionar é grande, mas de dar certo é quase zero!
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Na expectativa de novas discussões, vão ser reapresentadas as questões pendentes – um café requentado, que não pode ser esquecido, de acompanhamento, a mesma reza! Mas se as novas demandas forem, devidamente colocadas, o cenário muda!- um café fresco para ser saboreado, com bolo de milho e pãozinho de soja. De acompanhamento, cabe uma reza diferente! Com certeza, além do que se arrasta, algumas questões serão inevitáveis , até para justificar o café diferente!
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– há de se fomentar o uso diversificado da madeira de nossas florestas plantadas. Não dá para a silvicultura ficar refém de meia dúzia de grandes consumidores! Uma atividade gigantesca voltada a poucos interessados! Não é justa e nem pode se sustentar!
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– a biomassa como alternativa energética precisa ser repensada e equacionada. Ela embute benefícios sociais e ambientais imensuráveis. E muita gente entendida diz que o uso da biomassa é caminho irreversível. É só ter coragem para enfrentar as dificuldades políticas!
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– Precisamos ampliar a participação do Brasil no comércio mundial de produtos florestais. É vergonhosa a participação do Brasil!
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– Temos o compromisso global de se aumentar a área de florestas plantadas: para onde e como fazer? É compromisso assumido com o mundo. E não importa a responsabilidade de quem prometeu. É compromisso do Brasil!
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– E a silvicultura de espécies nativas? Nem pesquisa, nem programas de revegetação das áreas ambientalmente frágeis! Um desprezo institucional, que mancha a silvicultura brasileira!
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– O fomentado precisa ser integrado ao processo de produção para usar terras ociosas e aumentar sua renda! Não pode continuar refém dos grandes consumidores. Há de se pensar em modelos que contemplem a efetiva participação, comprometimento e lucratividade do fomentado. É a melhor e única alternativa para garantir a competitividade e expansão do parque industrial instalado. Aquisições de terra? Nem pensar!
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– A consolidação de uma legislação objetiva, prática e que não exija adereços desnecessários e de alto custo é imprescindível à silvicultura. Da mesma forma, a inexistência de financiamento precisa ser dita claramente. É só discurso! Há de se encontrar as razões que impedem que interessados e habilitados para tal, fiquem na fila, até cansar e desistir!
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– E o que fazer para dar vida à siderurgia mineira, com tanta madeira e tantos desempregados e que perde para a siderurgia a carvão mineral, altamente poluidora, de outros países? E num mundo, que luta por iniciativas industriais e econômicas de menos carbono?
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São desafios que tocam direto no dia-a-dia da silvicultura brasileira!
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E será que alguém acha, que essas coisas não precisam mudar?
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Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br
