A SILVICULTURA, A BIOLOGIA E A MATEMÁTICA

Numa certa ocasião, em discussão com Diretor de empresa, insistimos em afirmar que  “ o bom trabalho de silvicultura  é  o resultado do equilíbrio  entre decisões biológicas e matemáticas” e que o sucesso  de qualquer empreendimento , depende  muito  de se saber dosar os referidos componentes!  Mais matemática  ou mais biologia, pode trazer  dificuldades imensuráveis. Alguns anos após, e observando o que acontece em muitas empresas e os desdobramentos em suas regiões de atuação, ficamos com certeza, ainda maior, de que  o desequilíbrio nas decisões pode trazer consequências desastrosas ao setor.  Há centenas de exemplos, onde o desequilíbrio pode criar enormes problemas, mas nada é tão emblemático, quanto ao uso desproporcional da matemática, no estabelecimento  das estratégias de abastecimento de uma grande indústria consumidora de madeira!  Nos casos, em que  a planilha que indica o custo da madeira posta na fábrica é o primeiro e o principal mandamento a ser observado, a possibilidade de se encontrar aberrações biológicas é muito grande. Esse procedimento  sacrifica a biologia, quase mata!

É muito simples de se entender: num determinado  tempo,  a empresa embalada pela política da boa vizinhança, que se prega  como diretriz da silvicultura sustentável,  inicia  amplo programa de fomento nas propriedades vizinhas. Só festança! Fotos, discursos, reuniões, programas de educação ambiental, doação disso e daquilo….. e a empresa vai formando um grande maciço florestal. Pode até surgir alguns questionamentos do “pessoal do contra”, mas a empresa  com seus vizinhos fomentados e parceiros  de produção de madeira, logo sufocam, e a vida continua. E a cartilha dos procedimentos silviculturais  é rigorosamente  aplicada – cuidados com  manutenções, incêndios,  medições para se estabelecer curvas de crescimento, ponto ideal de corte e, vamos que vamos.

É assim que manda a biologia e é isso que se aprende nas primeiras aulas de silvicultura! Quem fez o curso, sabe bem disso! E quem prega a sustentabilidade não pode deixar de lado esses conceitos básicos. Lá na frente, começa a colheita!  Mas de repente, uma crise na China  abala o mercado global e começam as reduções de  custo e as famosas revisões estratégicas e orçamentárias. Nesse momento, já apareceu em cena o “craque de planilha” e de forma inquestionável mostra o caminho a ser seguido: a  madeira nesse preço inviabiliza a aplicação dos princípios  da política de competitividade e otimização dos recursos produtivos ! E mais – veja a diferença no custo do produto final, se adotarmos  os novos valores de referência!   Com uma planilha “imexível” e o discurso recheado  de palavras  modernas,  é dado o sinal de partida para  novas batalhas na organização. O corre-corre é grande, mas de saída já se sabe que a madeira vai pagar parte significativa da conta. Aquelas florestas próprias, que ficam mais distantes e os fomentados, que não se cansam de reclamar dos preços  vão para as gavetas – essa madeira  não dá para ser usada!  E a biologia com suas curvas de crescimento, época de corte, etc.  e todo requinte técnico não cabe na planilha!

Aliás,  há  margens  para  florestas bem próximas, mesmo que  a biologia diga  que não   estejam na época de corte. É só um pouco, então, taca-lhe pau! É um santo  remédio  para  “buracos” inesperados! Depois é depois….! E a biologia?  Alguém haverá de  encontrar uma explicação mais tarde! Isso tudo seria muito simples, e sem maiores problemas, se nesse imbróglio não estivesse metido um punhado de gente, compromissos, terras ocupadas com florestas  sem aproveitamento e não demandasse centenas de gigantescos caminhões viajando milhares de quilômetros por rodovias públicas à procura daquela madeira, que  vem lá de longe, mas cabe na planilha!  Perdeu a biologia e fica por conta da sociedade todos os demais impactos sociais e ambientais daquelas florestas das vizinhanças! Não dá para entender muito bem e discutir essa lógica matemática, mas que essa encrenca gigantesca, num determinado momento, vai ter que ser repensada, parece que também não há dúvida! Precisamos respeitar a matemática, mas não dá para matar a biologia! Ou essa história de silvicultura sustentável é só para discurso e enfeitados relatórios de final de ano!

Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br

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