A Comunidade de Silvicultura vai manter e alimentar a janela “SILVICULTURANDO-SE”. Não estamos criando nenhuma novidade. É mais para registros e lembranças! Há muitos informativos do setor, que se preocupam com o “dia-a-dia” da silvicultura brasileira. Ajudam e muito aos produtores, investidores, empresas, enfim… a todos que se interessam pela atividade. Essa janela da Comunidade de Silvicultura é para lembrar temas, críticas, mensagens, soluções e até problemas, que somem e de repente, aparecem com outra roupagem! É para evitar, como diz nosso amigo Paulo Galvão, de se dar “pique no lugar!” E vamos aos fatos para serem sugeridos, criticados, lembrados e comentados:
1- Endereço institucional da silvicultura
A falta, lá em Brasília, de uma sala, dizendo – Silvicultura Brasileira – aparece em todas as listas de reivindicações, desde quando o IBDF foi extinto, em 14 de fevereiro de 1989. Já se vão 27 anos! Contar toda a história? Nem pensar! Só lembrar, que mesmo retornando ao Ministério da Agricultura, a situação ainda não mudou! Continua a esperança e a confiança nas pessoas que estão lidando com a questão. Mas cabe um alerta de preocupação! Seria ótimo uma sinalização sobre o andamento das coisas! E aproveitando: E o Programa Nacional de Florestas Plantadas?
2- As mudanças do novo Código Floresta
O novo Código trouxe inúmeras modificações. Há questões que necessitam de regulamentação! Como ficamos junto ao Conama? Será que as regulamentações junto ao Conama estão resolvidas? Não podemos esquecer que temos pendências a serem regulamentadas. É uma parada! Mas essas questões ligadas ao Conama precisam ser, adequadamente, definidas!
3- A falta de água e os plantios com espécies nativas
Há cerca de 1 ano atrás, faltava água nas torneiras de muita gente, e pipocavam projetos de recuperação de nascentes e de áreas degradadas por todo lado. Chegaram as chuvas e os projetos sumiram! Vamos esperar a próxima seca para continuarmos a novela? Aliás, proteger com reflorestamento de espécies nativas nossas nascentes é trabalho preventivo, imprescindível e gigantesco. Tendo ou não tendo chuva! Mas o assunto só entra em pauta, quando a torneira seca! Vieram as chuvas, e só restaram algumas iniciativas, que já existiam e o esforço da Secretária do Meio Ambiente de S.Paulo, que luta para estimular o plantio de espécies nativas em compensações ambientais, recomposição de APPs e Reserva Legal. Esforços louváveis e que precisam de continuidade e apoio. É enorme o tamanho dos problemas que precisam ser resolvidos!
4- Espécies nativas: incentivos e pesquisas
Apesar da necessidade de se reflorestar nossas áreas de proteção ambiental com espécies nativas, há de se manter em pauta, dentre outras, duas grandes necessidades : recursos para o desenvolvimento de pesquisas com nossas espécies nativas e o estabelecimento de mecanismo que incentive o plantio! A Lei 5106, de 2 de setembro de 1966, que deu início às políticas de reflorestamento no Brasil, é tida por muitos, como um bom modelo, que poderia ser discutido! Será que não é uma sugestão a ser pensada por nossos governantes? Os resultados para o eucalipto e para o pinus, apesar de críticas discutíveis, foram excelentes!
5- PROFOMENTO, criado em 14/10/2002, não decolou!
Naquela data, em Assembléia Geral, na sede do IPEF, em Piracicaba-SP, contando com o apoio de mais de 50 (cinquenta) participantes, era criado o PROFOMENTO. Já, naquela época, percebia-se a necessidade de uma entidade, que cuidasse dos interesses de fomentados e produtores florestais independentes. Na ocasião, problemas burocráticos e detalhes jurídicos impediram a continuidade da proposta. Um dos principais objetivos era encontrar mecanismos de interesse comum, que pudessem incentivar e dar segurança aos programas de fomento florestal, valorizar a madeira e conseguir justa remuneração, por ocasião da venda. De fato, muitas coisas mudaram…. para pior! Alguma entidade cuidando dos interesses dos produtores pequenos ou grandes, seria importante para a sustentabilidade da silvicultura! Será que alguém duvida disso?
6- A madeira viajando pelas estradas
Apesar do preço baixo da madeira, reclamado por produtores florestais de muitas regiões do Brasil, é de se assinalar alguns paradoxos: há empresas cortando florestas com idade bem aquém do ideal; há madeira sendo transportada a centenas de quilômetros do ponto de consumo e a madeira produzida a 40 ou 400 km de distância do consumidor tem o mesmo valor! Aliás, é bom lembrar que a produção industrial de celulose de S. Paulo, nos anos 80 e 90, só foi possível crescer e se sustentar em função da madeira trazida do Mato Grosso do Sul. Foram milhões de metros cúbicos transportados a mais de 700 km de distância. Tem muita razão, quem diz: “madeira cara é aquela que não existe!”. E muito mais razão, quem acredita, que tratar o fomento, sem as devidas ponderações, é “matar a galinha dos ovos de ouro!”
7- Ataques de pragas vai aproximar empresas!
Há muitos alertas a respeito do ataque de pragas em quase todas as regiões brasileiras. São apontadas como causas principais: grandes extensões de culturas monoclonais; inexistência de matas naturais; programas ineficientes de combate; falta de conhecimento ou negligência do produtor, cortes orçamentários, dentre outros. Há exemplos no mundo de enormes áreas florestais, que foram arrasadas por pragas surgidas em decorrência de desequilíbrios climáticos! Há especialistas na matéria, que dizem que já está passando da hora de grandes empresas e produtores florestais se atentarem para a expansão e os desdobramentos de ataques crescentes e mais agressivos, que estão se sucedendo! O “mais ou menos”, o “acho que ainda não é hora” e o “não tenho nada a ver com isso” podem custar muito caro à silvicultura brasileira! E outro aspecto interessante: o resultado vai sempre depender da disposição do vizinho!
8- A restrita base genética da eucaliptocultura
A clonagem de eucalipto trouxe excelente contribuição à produtividade das florestas de eucalipto. Mudou “a cara da silvicultura” com florestas uniformes e de produtividades espetaculares. Em alguns locais, o acréscimo foi superior a 50 %. De outro lado, trouxe a sensação, de que tudo estava resolvido, em termos de melhoramento genético. E assim, grande parte dos trabalhos de genética, que vinham sendo conduzidos, foram deixados a segundo plano. Nos dias atuais, um pouco mais de meia dúzia de clones, de alta plasticidade, são plantados em todo o Brasil! E já foram parar até na China! Há muito tempo, fala-se na estreita base genética da eucaliptocultura comercial do Brasil! Há inúmeros especialistas falando da urgente necessidade de se aumentar a quantidade de clones para os plantios comerciais!
9- A certificação e o “escopo de tartaruga”
A certificação florestal é considerada, por muitos, como um dos principais fatores que consolidaram o desenvolvimento da silvicultura brasileira. Há, no entanto, fatores que impactam fortemente na atividade e que não fazem parte do “escopo de certificação”. A relação e o tratamento dado às empresas terceirizadas e fomentados são exemplos de temas considerados “fora do escopo” da certificação, e se, mal conduzidos por empresas certificadas, podem criar impactos danosos em prestadores de serviços e comunidades do entorno dos empreendimentos florestais. Será que o “escopo da certificação” é como uma casca de tartaruga? Uma mãozinha desse lado, pode ajudar muito a sustentabilidade da silvicultura!
10- A diferença da chegada e da saída!
A chegada e a saída do setor são, no mínimo, chocantes! No início, os grandes empreendimentos são marcados por correria, entusiasmo e otimismo. Nem os processos burocráticos, legislações e as complexas licenças ambientais assustam. O EIA-RIMA com audiências públicas, negociações de condicionantes sociais e ambientais, conversas com autoridades de plantão, promessas às comunidades, cursos de treinamentos…. nada atrapalha! Centenas de empregos…. um punhado de promessas e muitas firulas! De repente, acaba tudo! De fininha e nenhuma satisfação, nem ao bispo! E as pedradas? Ficam para os que continuam lutando pela silvicultura sustentável. E os condicionantes disso ou daquilo……. às gavetas!
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – serviços florestais – nbleite@uol.com.br
