O PLANTIO DE ESPÉCIES NATIVAS: É BOM SABER!!

Numa animada conversa a respeito de problemas do setor, alguém defendia com muita indignação ; “não há nada mais vergonhoso para a silvicultura brasileira, do que não ter nenhuma espécie nativa plantada em escala comercial”. De outro canto, alguém tentou um remendo, mas pouco valeu : “temos o guanandi, o paricá “ e antes que ele desse mais algum nome, o indignado retrucou: “estou falando de plantio comercial de 5,8,10 mil hectares! E ,então, veio em coro… “é verdade” . Todos aprovaram . Foi uma discussão muito proveitosa , com considerações, que caberiam perfeitamente aos ouvidos dos “fazedores de programas disso ou daquilo”!. Seguem as considerações para registro e reflexão!
1- As primeiras iniciativas para fomentar o plantio de espécies nativas surgiram com a política de incentivos fiscais para reflorestamento, por volta de 67/68 com a Lei 5106 e, mais tarde, com a Lei 1134, que tratava do FISET- Reflorestamento. Previa-se o plantio de espécies nativas em 1 % da área plantada com incentivos fiscais. Não há informações a respeito do resultado desses plantios, mas há muita desconfiança, de que tenha sido um fracasso! Mais na frente, por volta de79/80, o próprio IBDF, acatando sugestão da Dra. Maria Thereza George Pádua, trocou o 1% exigido por lei, por manutenção de 10% de vegetação natural. Estima-se, que dessa forma, foi possível manter mais de 200.000 ha de reservas naturais distribuídas em milhares de propriedades, que plantavam espécies incentivadas. Merece registro essa excelente contribuição da Dra. Maria Thereza, brilhante profissional do antigo IBDF, e reconhecida como das principais precursoras do movimento ambientalista brasileiro;
2- Depois de mais de 50 anos de pesquisa florestal realizada no Brasil, há indicações de que mais de 90 % dos recursos envolvidos nesses trabalhos foram alocados para o desenvolvimento de técnicas para formação de florestas de eucalipto e pinus. E mais de 50% desse valor foi originado de empresas interessadas na madeira como insumo industrial. Logo, não é nenhum exagero afirmar que a silvicultura brasileira só atingiu os elevados índices de desenvolvimento, graças ao irrestrito apoio da iniciativa privada;
3- Há centenas de estudos mostrando o potencial de inúmeras espécies nativas. Mas são escassas as informações técnicas, que abordam todo o ciclo produtivo das espécies promissoras. Aparentemente, nunca houve recurso disponível, capaz de motivar pesquisas no setor. O que existe, tem sido possível pelo esforço de heróicos batalhadores!
4- As introduções iniciais de eucalipto e pinus, segundo dados bibliográficos, mostravam produtividades em torno de 15 metros cúbicos/ha/ano, semelhantes às produtividades de dezenas de espécies nativas, sem qualquer melhoramento genético. Há muitos pesquisadores, que apostam nesses indicadores iniciais!
5- Nesse contexto de falta de informação, surgem dados, que nem sempre são suportados por base científica. Casos de exceção são apresentados, comercialmente, como” verdadeiras pérolas”, e levam desavisados interessados a grandes frustrações. Informações enganosas também surgem na silvicultura de eucalipto e pinus, mas são detectáveis com mais facilidade!
6- Com os problemas de seca e os reflexos nas represas de abastecimento de água dos grandes centros, os assuntos ligados à revegetação de áreas degradadas e recuperação de nascentes acendeu uma “luz de preocupação” na sociedade. Há consenso de que há necessidade, urgente, de se envolver os plantios com espécies nativas na solução dessas questões e isso ajudar no desenvolvimento de mais pesquisas . Tomara, que a chegada das chuvas não apague a chama de interesse!
7- À semelhança do que já se tentou, anteriormente, seria interessante que se criasse um grupo de especialistas para elaboração de informativos práticos para orientar pequenos plantios. Há informações esparsas, que talvez possam ser aproveitadas. Mas o crivo técnico e responsável é imprescindível para que a informação tenha credibilidade. Isso deveria ser entendido como obrigação institucional e intransferível do Governo, através de suas instituições de pesquisas e universidades . Seria uma grande contribuição à silvicultura brasileira!
8- Nos últimos anos, as novas legislações estão destacando o pagamento por serviços e compensações ambientais. Em alguns estados, o assunto está sendo tratado com apoio técnico e muita fiscalização. Em S. Paulo, a Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo, através de inúmeras Resoluções Normativas está movimentando positivamente o setor. Tudo indica que o setor está saindo da inércia vergonhosa;
9- Ainda por conta dos trabalhos de compensação ambiental estão se formando viveiros de nativas e empresas para prestação de serviços de plantio e manutenção de florestas nativas. O pape da fiscalização para integrar competição , custo e qualidade dos plantios. Tudo para não comprometer o ânimo dos interessados;
10- Os interessados no plantio de espécies nativas devem consultar um especialista no assunto. Há profissionais competentes que sabem lidar com as escassas informações e podem ajudar muito. Mas se não se deixem levar por sonhos dourados e milionários. Há exemplos bem sucedidos, às vezes, em condições especiais e que não permitem generalizações!

Tomem muito cuidado, principalmente, com a possibilidade de venda da madeira a ser produzida, por valores exorbitantes. Usem todos os meios para se conhecer informações “milagreiras”, que aparecem. Infelizmente, há muito a se fazer, até que se possa confiar plenamente no sucesso de grandes plantios comerciais com espécies nativas.
Nelson Barboza Leite – Diretor da Teca e Daplan – Serviços Florestais – nbleite@uol.com.br

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